"Foi só uma brincadeira." Será? Você sabe identificar discriminação no trabalho?

Três vasos, discrimação no trabalho

Quando se trata de discriminação o copo será sempre meio vazio. Pesquisas recentes apontam que 80% das pessoas já vivenciaram casos de discriminação no trabalho.

O que é, o que é: Pode ser feita por uma só pessoa ou por um grupo. As vezes demoram para perceber sua presença no ambiente e um de seus principais efeitos é extinguir oportunidades. Tem quem a considere "só uma brincadeira", mesmo que tem quem demore muito para se recuperar quando passa por uma.

Sim, estamos falando sobre discriminação. Um assunto tão complexo que impacta a sociedade a níveis individuais e coletivos.  O fato de muitas pessoas ainda interpretarem atos de discriminação como "brincadeira", escancara a alarmante necessidade de desconstruir os estigma sociais existentes por trás dos marcadores sociais da diferença que servem como base para esse tipo de comportamento nocivo.

Ah, mas isso é "mimimi", é "brincadeirinha". Por que ainda tem quem enxergue um ato de discriminação dessa forma?

Se uma brincadeira ou apontamento pode deixar outra pessoa desconfortável a qualquer nível, deve ser visto como algo errado. Quando uma pessoa ou um grupo distingui, exclui ou trata alguém de forma negativa por conta de características, crenças, gostos ou condições sociais está discriminando esta pessoa, e segundo a lei, cometendo um crime

Porém, não é todo mundo que interpreta dessa forma. Isso ainda acontece porque a base em que nossa sociedade foi fundamentada, ou seja, a forma como ela foi construída no decorrer dos séculos, permitiu que alguns recortes sociais prevalecessem sobre outros. Dessa forma, por muito tempo, usar as diferenças sociais para ofender outras pessoas foi permitido. Acontece que esses grupos preteridos, passaram a revogar seus direitos, como as mulheres através do feminismo, ou pessoas negras e indígenas com as lutas antirracistas. 

Uma primeira transformação do que era socialmente aceitável ou não passou a acontecer e as ofensas começaram a ser tratadas como piadas a fim de trazer uma leveza aos preconceitos e discriminações. Hoje, após mudanças, protestos e reflexões, não existe mais espaço para falas que transformem vivências diversas em piadas ou ofensas “sem querer querendo”.

Discriminação no ambiente de trabalho: “É só brincadeira” X “Isto é sério“. De qual lado você está?

Em um ambiente de trabalho as pessoas devem ser reconhecidas por suas habilidades e competências e sempre tratadas com respeito. Entretanto, as relações de poder que compõem esses espaços podem resultar em uma realidade bem diferente. 

Você já vivenciou ou conhece alguém que foi alvo de fofocas no trabalho? Ou que teve como orientação não usar o cabelo ou roupas que chefes não gostavam? Isso é discriminação. Estatísticas confirmam a amplitude e gravidade do problema: 80% das pessoas no mercado de trabalho afirmam já terem visto acontecer.

Apesar de muito comum, sabemos que ainda não é totalmente claro para todas as pessoas quais são os tipos de comportamento que podem ser classificados como atos de discriminação no ambiente de trabalho. Para ajudar a esclarecer isso, trouxemos algumas atitudes que merecem ser revisitadas a fim de evitar casos de discriminação no ambiente de trabalho.

Três fósforos sem uso e um queimado, discriminação do trabalho
  • Usar características físicas para descrever uma pessoa

Todos recebemos nomes ao nascer para que a nossa identificação seja possível. Este ainda é o melhor jeito para se referir a alguém. Quando você descreve pessoas a partir de seu peso corporal, cor de cabelo ou pele e demais características físicas, a reduz e rotula a partir deste traço. 

Isto não significa que você precisa tapar os olhos para elogiar a nova cor do cabelo de um colega. Apenas entender que alguns estereótipos são carregados de conotação negativa e podem causar impactos psicológicos, também negativos, a quem escuta.

Quando for necessário se referir a uma pessoa, procure sempre apresentá-la ou abordá-la diretamente caso ela esteja no mesmo ambiente., Se não for possível, opte por descrevê-la de acordo com o lugar onde ela se encontra, como por exemplo: “Você pode se sentar próximo a Sara, aquela pessoa que está na segunda fileira, na cadeira do meio” ou ainda “O Augusto é aquela pessoa de camisa amarela e preta, pode falar diretamente com ele”.

  • Fazer piadas ou comentários sobre orientação sexual

A orientação sexual de uma pessoa não deve ser abordada dentro dos espaços de trabalho. Inclusive, manifestações sobre este assunto precisam ser evitadas quando um aval não é dado em qualquer espaço.

Cada indivíduo lida e sente as vivências de sua jornada de formas diversas então considerar que falar sobre sexualidade é tranquilo para todas as pessoas porque é para você, é uma ótica distorcida sob a outra pessoa. Procure não falar sobre assuntos pessoais da vida alheia a menos que lhe convidem para esta conversa.

Esta cena da série americana “The Office” traz um ótimo exemplo de situação na qual um comentário sobre a orientação sexual de uma pessoa não deveria ter sido feito. Confira: 

  • Justificar a conduta de alguém com base no gênero dessa pessoa

Também conhecido como sexismo, definir se uma pessoa teve uma atitude certa ou errada de acordo com o seu gênero (masculino, feminino ou não binário) e não com base na ação em si é uma forma de discriminação. 

O sexismo pode se manifestar através de frases como “Ficou muito delicado porque foi a Ana que fez, ela é mulher” ou “Precisamos pensar em um cara ponta firme na liderança daquela equipe, tem que ser homem porque precisam de pulso firme”. 

Lembre-se: para lidar com uma situação, o foco precisa estar voltado para as ações feitas e não para as características individuais das pessoas envolvidas.

 
Um ovo ao meio sozinho com outros em volta, discrimação no trabalho
 
  • Difamar alguém por ter uma forma diferente de pensar

Uma das vantagens de ter uma equipe culturalmente diversa é o acesso a diferentes ideias. Ao invalidar a opinião de alguém constantemente por enxergar as coisas de um posto de vista distinto, além de perder a oportunidade de conhecer novos ângulos você está discriminando essa pessoa e encorajando o resto da equipe a fazer o mesmo.

Opte sempre por escutar e considerar ideias de todas as pessoas envolvidas em um projeto ou grupo e só então faça um filtro com foco no objetivo final e não em suas crenças pessoais.



  • Excluir ou afastar alguém de eventos e “panelinhas” por sua condição financeira

Vivemos em um país economicamente desigual, não é surpresa. Ações governamentais aliadas a oportunidades no mercado de trabalho precisam continuar em expansão para garantir nivelamento de renda. Já o papel individual das pessoas neste cenário é entender que ser rico ou pobre é uma condição social e não um adjetivo ou fator limitante. Deixar de convidar uma pessoa para almoços e festas de equipe é tão discriminatório quanto culpar seu gênero ou sua raça por um erro. 

O mesmo ponto vale ao pensar que uma pessoa tem conhecimento ou capacidade inferior por não ter feito intercâmbio ou estudado em faculdades particulares caras. Todas as experiências de vida trazem aprendizados valiosos que podem ser desenvolvidos e colocados em prática através de uma liderança eficiente.



Mão segurando balão de fala, discriminação no trabalho

“Percebi uma situação de discriminação no meu local de trabalho. E agora?”

Por mais que a empresa tome medidas preventivas, muitas vezes não é possível identificar e impedir todos os casos de preconceito. Então, o que fazer quando você testemunha um caso de discriminação no trabalho?

Quando algum tipo de discriminação é identificado, é necessário que gestão e liderança mantenham um posicionamento contrário a esses comportamentos. Também é importante não deixar de lado a situação e procurar resolvê-la da forma menos constrangedora possível, preservando a vítima. Além disso, já é um fato: empresas com equipes de gerenciamento mais plurais tendem a ter um local de trabalho mais seguro, além de uma performance superior à média, o que resulta em crescimento e inovação.

Uma boa forma de identificar demandas discriminatórias e dar espaço para vítimas e testemunhas falarem sem medo, é oferecer um canal de denúncias ou escuta para as pessoas colaboradoras. Plataformas como a da SafeSpace garantem que um relato de comportamento inadequado chegue fundamentado para as pessoas certas.


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